Local de sepultamento de heróis da Retirada da Laguna é tombado em MS

Tombamento da área estava em tramitação no governo federal desde 1955.
Camisão, Juvêncio e Lopes lutaram na Guerra do Paraguai.

monumento

Chamado de “Cemitério dos Heróis”, na cidade de Jardim, a 217 quilômetros de Campo Grande, o local onde foram sepultadas algumas das mais importantes figuras históricas que participaram da Retirada da Laguna, um dos mais dramáticos episódios da Guerra do Paraguai, foi tombado pelo Ministério da Cultura como Patrimônio Histórico Material do Brasil. A portaria com a homologação foi publicada na edição desta segunda-feira (12), do Diário Oficial da União.

No cemitério foram sepultados o coronel Carlos de Morais Camisão, o tenente-coronel Juvêncio Cabral de Menezes e José Francisco Lopes, o guia Lopes. O local já era patrimônio histórico do município e desde 1955 tramitava no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o processo para o seu tombamento como patrimônio nacional.

O chefe substituto e técnico em História do Iphan em Mato Grosso do Sul, José Augusto Carvalho dos Santos, explica que problemas na documentação da área, entre outros, provocaram a demora no tombamento. “Na década de 1990, 40 anos depois de ser aberto, o processo foi retomado e a mesma questão territorial o fez ser suspenso até o início da década de 2000. Em 2001 foi arquivado e em 2002 foi retomado, mas em seguida suspenso novamente”, diz.

“Na época um dos membros do Conselho Consultivo constatou que o tombamento do bem já havia sido aprovado em 1955, mas estava em diligência pois não se sabia quem era o proprietário do local. Nessa reunião houve um acalorado debate quanto a manutenção ou não do tombamento e, após o pedido de vistas ao processo e a promessa de colaboração dos conselheiros juristas e historiadores, o processo foi suspenso novamente até que as questões que o envolviam fossem resolvidas. Os limites foram então aprovados durante uma reunião do conselho em 2015. Portanto, oficialmente a data de tombamento do bem é 11 de junho de 2015, quando da decisão do Conselho Consultivo, que foi ratificada agora na Portaria 127 de 30 de agosto de 2016, que foi publicada nesta segunda-feira no Diário Oficial da União”, detalha.

Santos explica que o nome popular “Cemitério dos Heróis” foi substituído no tombamento por “Lugar em que estiveram sepultados o guia Lopes, o coronel Camisão e o tenente-coronel Juvêncio”. “Isso porque os restos mortais dos mencionados heróis não estão no local, já tendo sido há muito tempo [Entre 1940 e 1941] transladados para um monumento na cidade do Rio de Janeiro, o “Mausoléu aos Heróis de Dourados e da Retirada da Laguna”, que está localizado na praça general Tibúrcio, Praia Vermelha, bairro da Urca”.

História
O coronel Camisão, o tenente-coronel Juvêncio e o guia Lopes, fizeram parte da Força Expedicionária Brasileira que combateu na região sul, da então província de Mato Grosso, as forças do ditador paraguaio Solano López, na Guerra do Paraguai. A guerra foi o maior conflito armado ocorrido na América do Sul. Foi travada entre o Paraguai e a Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai e se estendeu entre dezembro de 1864 e março de 1870.

Em 1867, as tropas brasileiras chefiadas por Camisão e guiadas por Lopes entraram no território paraguaio até a região de Laguna. Sem alimentos, sem munição e ainda  atingidos por doenças como a cólera, os brasileiros foram obrigados a fugir, mas foram perseguidos pelos paraguaios.

Na fuga, a atuação do guia Lopes orientando as tropas brasileira foi fundamental para impedir que os soldados fossem todos massacrados. Ele mostrou caminhos aos soldados brasileiros e despistou o inimigo em um terreno difícil. Entre os brasileiros estava Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay, o visconde de Taunay, que mais tarde imortalizou a passagem escrevendo um livro sobre o assunto, a “Retirada da Laguna”.

Camisão, Juvêncio e Lopes também morreram em razão da doença. Eles foram enterrados na margem esquerda do rio Miranda, onde está localizado o cemitério. Dos três mil soldados brasileiros que integravam a unidade, somente 700 sobreviveram, mas todos poderiam ter morrido sem a atuação dos três heróis.

O cemitério atualmente é administrado pela prefeitura e a 4ª Brigada de Cavalaria Mecanizada. Com o tombamento, o Iphan passa a ter a incumbência de fiscalizar regularmente a conservação do local e tem de ser comunicado previamente e autorizar qualquer tipo ação ou intervenção na área.